3 de fevereiro de 2015

RESENHA: O Homem que venceu Auschwitz - Denis Avey e Rob Broomby

 O Homem que venceu Auschwitz - Denis Avey e Rob Broomby


De tempos em tempos eu sinto essa necessidade quase fisiológica de ler sobre esse tema. É meio surreal, doloroso mas importante. Esse livro específico se diferencia das minhas leituras anteriores pois é o relato de um soldado inglês que foi capturado durante a guerra.

O título original em tradução livre é 'O Homem que invadiu Auschwitz' e faz mais jus ao que ele conta. Tudo começa com a entrada das tropas inglesas na base aliada e embarque dele em agosto de 1940. Ele mostra como a inocência era regra para esses soldados, para a maioria eles estavam indo de encontro a uma grande aventura.

A realidade começa a surtir efeito quando ele chega ao deserto e começa um verdadeiro 'pique-esconde / pique-pega' entre o exército inglês e o exército italiano. Ele narra as dificuldades que os homens encontravam durante a estada no deserto e os primeiros amigos que viu morrer.

Daí para frente a coisa só piora, ele é feito prisioneiro pelos italianos, fica à deriva no mar, prisioneiro de novo mas por alemães, ele conta também como cada regimento do exército alemão tratava os prisioneiros de forma diferente, desde o Afrika Korps que o tratou com dignidade (tratamento médico e alimentação decente) até a dura realidade da SS.

Ele ficou alguns anos em um campo para prisioneiros militares ingleses, o E715, que era por acaso, ao lado de Auschwitz III. Denis, ou Ginger como ele se apresentava aos demais no campo,  testemunhou em primeira mão o assassinato de incontáveis judeus, trabalhou lado a lado com eles e ajudou dois deles.

Avey em uma das fotos 'promocionais' acerca da qualidade de vida
que os britânicos tinham durante o aprisionamento. 

Com uma tendência quase suicida para se meter em problemas e querer saber como tudo funciona, ele bola um plano juntamente com o listrado (ele chama os judeus assim) Hans para trocarem de lugar por uma noite. Queria ver com os próprios olhos a realidade do outro lado da cerca. Ele acaba fazendo isso uma segunda vez. Durante pesquisa na internet, vi que muitos contestam a veracidade dessa história e os motivos de ele não ter vindo a púbico antes. Mas ao ler, achei bem possível. 

Muitos acham difícil que um oficial britânico pudesse se passar por um dos prisioneiros judeus. Pode até ser que ele não estivesse tão esquálido quanto os casos mais extremos de desnutrição que havia nos campos de concentração, mas pelo relato dele das privações e dificuldades que teve, ele estava longe de ser um homem saudável. Ele também esteve desnutrido, mas menos, poderia facilmente se passar por um recém-chegado e como ele mesmo diz, os listrados estavam sempre de cabeça baixa, se arrastando, eram ignorados. Nenhum oficial alemão olhava no olhos dessas pessoas. Eram apenas números.

Auschwitz III

O outro rapaz que ele ajuda é Ernst. Um menino de 19 anos que conta a ele que tem uma irmã que mora na Inglaterra. Em 1939, aos 15 anos ela conseguiu um lugar em um trem que levaria centenas de crianças judias para a Inglaterra. Ernst não teve a mesma sorte. Ginger então consegue, por meio de código, que sua mãe entre em contato com essa menina e ela envia 200 cigarros para ele. 

Os cigarros eram uma forte moeda de troca nos campos de concentração. Ginger entrega-os aos poucos para o rapaz e somente 65 anos depois ele descobre a maneira como esse gesto salvou sua vida na infame 'Marcha da Morte'. Eu me emocionei muito ao ler o trecho em que ele narra esses acontecimentos, os momentos finais da guerra. Em que as pessoas sabiam que a base aliada estava ganhando de fato mas temiam que não conseguissem sobreviver tempo suficiente para serem libertados. Estima-se que 50 mil pessoas iniciaram a marcha, mas apenas cerca de 20 mil sobreviveram a essa primeira parte do fim.

Enfim, é um livro interessante, controverso, e que nos faz refletir sobre a natureza humana e a importância do fator sorte para a sobrevivência em uma guerra.

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