22 de janeiro de 2015

RESENHA: The River's Tale - Edward A. Gargan

TBR - 02/2015

The River's Tale - Edward A. Gargan (A Year on the Mekong)

Este foi o segundo livro que tirei da TBR, e um dos mais difíceis que li nos últimos tempos. Além de ele ser em inglês, não se trata de ficção e há muitos termos referentes ao dia-a-dia das pessoas que vivem no interior próximo aos rios que não me era familiar mesmo em português. 

O jornalista Edward A. Gargan faz um relato minucioso e transparente da vida das pessoas que moram às margens do Rio Mekong. Rio esse que nasce na China e passa por: Tibete, Myanmar, Tailândia, Laos, Cambodja e Vietnã quando enfim encontra o Mar da China. Ele queria fazer todo o percurso pelo rio em si, mas em alguns trechos isso não foi possível.

Ele vai encontrando pessoas singulares pelo caminho, muito simples mas que sabem o que querem e o que não querem. E sempre há amor pela terra em que nasceu, independentemente da pobreza e das dificuldades que possam encontrar.

As partes que mais gostei foram os momentos em que ele encontra com monges budistas. Inclusive ele participou da cerimônia em que um deles passa de monge-aprendiz a monge de fato. A vida diária desses meninos, jovens e idosos é fascinante. E pude perceber que sendo no Tibete ou no Laos, as coisas são iguais, os horários, os afazeres, a filosofia, o que muda é o tamanho do wat (templo). 

Na permanência dele na Tailândia é possível ver como em alguns países (Brasil incluso) a pobreza e a riqueza estão separadas por pouco, Lá de um lado do rio as pessoas vivem da pesca e do transporte de carga e pessoas pelo rio, não tem luz elétrica, saneamento, voz. Do outro lado há uma cidade grande, cheia de modernidades, infraestrutura digna de 1º mundo. A Tailândia do turista.

Laos foi com certeza o momento de maior pobreza e abandono. Um país que foi usado e descartado por Vietnã, China e EUA durante a guerra e nada levou de positivo em troca. O pior com certeza foi o Cambodja: devastado pela guerra civil, pelo domínio dos Khmer que arrasaram com a população, dizimando famílias inteiras. O relato dele me deu calafrios e isso por ser apenas o 'depois'. 

Uma terra em que quase ninguém fala do passado, onde ter mais de 60 anos é um milagre, pois significa que sobreviveu ao pior. Uma tragédia a altura do Holocausto judeu. Ele entrevistou um homem que sobreviveu por saber pintar. Durante os anos na 'prisão' pintou retratos de comandantes dessa tirania. A foto dele que há no livro demonstra todo o sofrimento de uma geração, apesar de estar vivo, é notável a dor, vê-se que algo está faltando, se partiu na guerra.

No fim da jornada, no Vietnã continua o contraste entre ricos e pobres, com o agravantes do preconceito racial. Há uma legião de jovens, filhos de militares americanos (safados) com mulheres vietnamitas. Rejeitados pela sociedade por serem mestiços, não são vistos como vietnamitas, mas os que chegam a ter contato com a America não se veem como americanos. Cresceram no sudeste asiático, falam vietnamita, se comportam como vietnamitas. Estão no limbo. Sempre voltam para onde nasceram.

Enfim, não é uma jornada que eu faria por mim mesma, não teria a coragem desse jornalista, mas não deixa de ser fascinante e de agregar valor e cultura. São histórias de vida que nunca teria contato sem livros como esse. Aguçou minha curiosidade sobre algumas coisas e me trouxe novas.



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