17 de novembro de 2014

RESENHA: As Filhas Sem Nome - Xinran


Desafio Literário do Tigre
06/12 - Autores Queridos

As Filhas Sem Nome - Xinran

Por onde começar? Xinran é sempre uma caixinha de surpresas. Esse relato sobre as camponesas 'palitinhos' é incrível. Mais uma vez Xinran me deixou com o coração na mão e a sensação de que preciso fazer algo. 

Não sei o quê, mas preciso. Mesmo que seja apenas divulgar o quanto as mulheres chinesas são incríveis, magníficas e fortes e um exemplo para qualquer mulher. Muitas das dificuldades que as chinesas enfrentam são particulares a elas, mas tantas outras são igualmente sofríveis em qualquer cultura e camada social. 

O livro nos traz as histórias de 3 moças de uma aldeia da província de Anhui que por terem nascido mulheres não receberam nomes, sã chamadas pelos pais de Três, Cinco e Seis. Três chega a Nanjing fugindo do destino que toda mulher palitinho é fadada a ter: Casar-se com quem quer que seu pai escolha. Depois de ver o que aconteceu com suas irmãs mais velhas, Um e Dois, ela decide trilhar um caminho diferente.

Tempos depois ela volta a sua cidade natal e acaba levando duas de suas irmãs consigo para a cidade. Cinco que era considerada a mais feia e burra das filhas e portanto a que menos tinha chances de conseguir um casamento e Seis, a única a ter terminado o Ensino Médio, a mais bela e mais inteligente da família. 

O livro portanto nos mostra as disparidades que cada uma delas encontra na cidade grande, a maneira como as pessoas migrantes se chocam ao ver como a vida é diferente no campo e na cidade, como os dialetos dos diferentes pontos da China tornam árduo a simples comunicação.

Das três trajetórias narradas, a que mais me tocou foi a de Cinco, pois ela foi quem teve o maior obstáculo: não saber ler nem escrever. Uma menina decidida, focada, e persistente eu diria. Agarrando-se aos seus olhos, narizes e ouvidos ela se torna uma ferramenta indispensável em seu local de trabalho e acaba por se tornar, ao meu ver, a mais bem colocada entre as três.

Três foi a desbravadora, mais também percebe-se que de longe é a mais ingênua e cabeça dura. Talvez ela tivesse medo de si mesma, ou a mentalidade rural estivesse tão arraigada nela que não houvesse jeito. 

Seis por sua vez, é destemida, e em alguns momentos me pareceu arrogante, em algum momento ela realmente deve ter se achado melhor que as outras por ter estudo. Seu emprego é um sonho para muitas pessoas que leem. Uma casa de chá/ biblioteca. Imaginem ir a um lugar, tomar um chá maravilhoso e poder pegar algo na estante para ler! 

Fiquei fascinada pela família que a empregou e gostaria de ter sabido mais sobre eles. O relato de Seis é o mais rico em relação à visão dos estrangeiros na China e dos chineses em relação aos estrangeiros, ou narizes-grandes. Enfim, é um livro encantador,cheio de ensinamentos, mas felizmente menos sofrível que outros da autora, mas isso não significa ser menos profundo. 

Separei alguns pedaços que preciso guardar. Passagens da leitura que adorei:

"Marcas de grife - é isso que meu filho diz que as lojas vendem. Ele e a mulher não querem saber de usar outra coisa. Quero dizer, vestir roupas é uma questão de ficar confortável e parecer apresentável, não concordam? Para que servem o nome de uma marca? Quem é que vai por as mãos no seu colarinho para olhar a etiqueta?" (p.149)

"Será que os estudantes da praça Tian'amen realmente sabiam por que estavam protestando? Muitos chineses não vem nenhuma diferença entre a revolta estudantil de Tian'amen e a Revolução Cultural: ambas foram levadas adiante por jovens, ambas queriam varrer a velha ordem em nome da 'Democracia'. Mas democracia não é algo que se atinge simplesmente agitando uma bandeira." (p.157)

"Os chineses dizem que se o Acaso reúne duas pessoas, mas essas pessoas não tem Tempo, a amor não florescerá. O amor tampouco vingará se as duas pessoas têm tempo para estarem juntas, porém nenhum afeto em seus corações. O único amor verdadeiro se dá quando Acaso e Tempo estão em harmonia." (p.197)

Recomendádíssimo!

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